
O pacto sombrio das gêmeas que se comunicavam em um idioma próprio
A conexão entre irmãos gêmeos sempre despertou curiosidade, especialmente quando apresentam comportamentos peculiares, como completar as frases um do outro ou compartilhar pensamentos e emoções sem precisar verbalizá-los. No entanto, a história das irmãs June e Jennifer Gibbons, do Reino Unido, se destacou por um vínculo enigmático que resultou em um pacto mortal.
Mesmo tendo crescido em uma família estruturada, as irmãs trilharam um caminho que as levou ao isolamento, à criminalidade e, por fim, a um destino trágico. Seu caso é estudado até hoje e até mesmo foi adaptado para o cinema.
Infância e primeiros sinais de isolamento
June e Jennifer nasceram em 1963, em Barbados, no Caribe, e se mudaram ainda bebês para o Reino Unido, onde foram criadas em Yorkshire. Desde pequenas, demonstraram um comportamento singular: evitavam interagir com outras pessoas e desenvolveram um idioma próprio para se comunicarem entre si.
Na escola, essa característica chamou atenção. As meninas se isolavam e eram frequentemente vítimas de bullying, especialmente por serem as únicas alunas negras em uma comunidade predominantemente branca. Nem mesmo o irmão mais velho, David, conseguia protegê-las das provocações constantes.
A situação despertou a curiosidade de especialistas quando um médico, ao vacinar os alunos contra tuberculose, percebeu que havia algo incomum no comportamento das gêmeas. Ele as encaminhou a um psiquiatra infantil e, posteriormente, a um fonoaudiólogo, que descobriu que o “idioma secreto” das irmãs era uma mistura de inglês acelerado com elementos do dialeto bajan, falado em Barbados.
Tentativas de separação e comportamentos estranhos
Buscando uma solução para o comportamento das meninas, os especialistas decidiram separá-las, acreditando que isso poderia incentivá-las a se socializar. No entanto, o resultado foi assustador: longe da irmã, June simplesmente parou de se mover, ficando imóvel por longos períodos.
Essa reação fez com que fossem reunidas novamente, e os médicos começaram a notar um padrão de controle entre elas, sem conseguirem identificar qual das duas exercia a influência dominante. Algumas teorias sugeriam que uma estava “possuindo” a outra.
Na adolescência, além de continuarem evitando a fala em público, passaram a se comunicar apenas por meio de olhares e movimentos discretos, reforçando ainda mais o mistério em torno de seu vínculo.
A jornalista e ativista de saúde mental Marjorie Wallace, que teve contato com as gêmeas, descreveu sua relação como “um jogo infantil que saiu do controle”. Segundo ela, as irmãs tinham rituais estranhos, como decidir quem respiraria primeiro, impedindo que a outra inalasse ar antes da primeira terminar.
Diários e primeiros crimes
Mesmo evitando a comunicação verbal, June e Jennifer expressavam seus sentimentos por meio da escrita. Ambas mantinham diários e chegaram a escrever romances. June, por exemplo, publicou Pepsi Cola Addict, um livro sobre um estudante seduzido por um professor.
Nos diários, porém, revelavam pensamentos sombrios. Jennifer escreveu em um dos relatos: “Nos tornamos inimigas fatais aos olhos uma da outra.” Em outro trecho, descreveu June como sua “sombra” e questionou se a irmã sobreviveria sem ela.
Com o passar dos anos, começaram a se envolver com álcool, drogas e atos criminosos. Em 1981, foram presas por vandalismo, roubo e incêndio criminoso. No ano seguinte, foram condenadas, mas, em vez de serem enviadas para a prisão, foram internadas no Hospital Broadmoor, uma instituição psiquiátrica de alta segurança.
Durante os 11 anos que passaram ali, continuaram escrevendo seus diários. Jennifer chegou a confessar que sentia seu coração “só bater quando June estava por perto”.
O pacto sombrio e a morte de Jennifer
Com o tempo, as irmãs começaram a acreditar que apenas uma delas poderia levar uma vida normal. Jennifer então tomou uma decisão assustadora: aceitou morrer para que June pudesse seguir em frente.
Em março de 1993, quando foram transferidas para uma instituição de menor segurança, Jennifer passou a se sentir fraca. No dia da transferência, entrou em colapso e foi levada ao hospital, onde faleceu aos 29 anos. A autópsia revelou que ela tinha uma inflamação cardíaca não diagnosticada, mas os médicos não encontraram nenhuma explicação para o problema.
Após a morte da irmã, June surpreendeu a todos ao começar a se socializar e a falar normalmente. Em entrevista à jornalista Marjorie Wallace, confessou que sentia tristeza, mas também uma liberdade que nunca tinha experimentado antes.
Hoje, June leva uma vida tranquila, distante dos holofotes. Na lápide de Jennifer, está gravado um poema escrito pela irmã:
“Um dia fomos duas,
As duas éramos uma.
Não somos mais duas,
Senão uma através da vida.
Descanse em paz.”