
A crise socioeconômica em Moçambique representa um grande desafio para o governo de Daniel Chapo. O economista Constantino Marrengula, do Centro de Aprendizagem e Capacitação da Sociedade Civil (CESC), alerta que a combinação de pobreza, desemprego e fome, somada ao elevado analfabetismo juvenil, pode comprometer a governabilidade do país. Segundo ele, a má gestão da última década agravou a crise, tornando 2025 um ano particularmente difícil.
Economia fragilizada e dívida pública crescente
Nos últimos dez anos, Moçambique registrou um fraco desempenho econômico, com o PIB crescendo abaixo de 4%, bem distante dos mais de 9% de governos anteriores. A situação fiscal se deteriorou, forçando o atual executivo a operar com um alto déficit orçamental, financiado por endividamento interno e assistência internacional. Essa dependência externa pode agravar a instabilidade cambial e aumentar a pressão sobre as contas públicas.
Marrengula ressalta que o governo de Chapo terá dificuldades para atuar em meio a uma dívida pública crescente e à necessidade de responder a desafios de segurança nacional. “A margem de manobra do executivo será reduzida, e a população espera respostas rápidas para evitar uma crise social ainda maior”, afirmou.
Pobreza extrema e falta de oportunidades
A região norte do país é uma das mais afetadas pela crise. Províncias como Nampula, Zambézia, Niassa e Cabo Delgado possuem índices de pobreza acima de 60%, apesar da riqueza em recursos naturais. Atualmente, cerca de 18 milhões de moçambicanos vivem abaixo da linha da pobreza, enquanto o analfabetismo juvenil atinge quase 50%, dificultando a inserção dos jovens no mercado de trabalho.
“Temos uma geração de jovens sem qualificação para os setores mais produtivos da economia”, explica Marrengula. A falta de oportunidades tem levado ao aumento da insatisfação popular, refletindo-se em manifestações e protestos contra o governo. “Diferente das gerações passadas, que tinham mais possibilidades de participação econômica, os jovens de hoje enfrentam um cenário de desesperança, o que os torna propensos à revolta contra o Estado”, acrescentou o economista.
O risco da instabilidade política
Um estudo do Observatório do Meio Rural intitulado As Armadilhas da Pobreza em Contexto Rural em Moçambique aponta que a pobreza se mantém praticamente inalterada desde 2002. A pesquisa sugere que apenas políticas públicas eficazes e de longo prazo podem quebrar esse ciclo.
Com a crise social se intensificando, o governo de Daniel Chapo precisa agir rapidamente para reverter o cenário. Qualquer erro na abordagem dos problemas estruturais pode resultar em maior instabilidade política e em uma pressão crescente da população por mudanças concretas.